O que aprendi em 2020

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2020 vai ficar registado na história. Não foi só mais um ano, mas sim um ano especialmente difícil e diferente.

Em Dezembro de 2019 lembro-me de ouvir, pela primeira vez, falar neste vírus e, como tanta gente, ter achado que era algo muito distante… Até Março conseguimos fazer a nossa vida conforme a havíamos conhecido até então, e a partir daí instalou-se uma nova realidade.

2020 foi um ano de grandes mudanças para mim e, confesso, apenas me comecei a sentir verdadeiramente assustada quando o quadro pandémico em Itália e em Espanha se agravou…

O meu pânico ia além das questões de saúde: tive muito medo de ficar sem trabalho, tive muito medo por todos aqueles que conheço, que vivem da prestação de serviços e atendimento ao publico, estarem, repentinamente impedidos de trabalhar, sem rendimentos e sem uma perspetiva de um amanhã melhor… Tive receio pelos meus familiares com saúde frágil e senti uma grande incerteza relativamente ao que ia ser a vida dos meus filhos (escolar, social, desportiva…).

Este ano e toda esta dor e incerteza não passaram ao lado de nenhum de nós. Por isso tenho a certeza que o que descrevo é, pelo menos, uma parte do que muitos de vocês sentiram ou pensaram. Pela primeira vez houve algo que afetou TODA a gente, sem qualquer diferenciação.

Regra geral, considero-me uma pessoa bastante otimista e prefiro sempre aguardar antes de me preocupar em vão. Enquanto muitos dos que me rodeiam me questionam muitas vezes ‘Não vês o que pode correr mal?’ eu respondo sempre ‘Então e tudo o que que pode correr bem?’.

Na maior parte dos casos as probabilidades de correr bem ou mal estão distribuídas igualmente nos habituais 50-50. Assim, porque me hei de focar nos 50% negativos se me posso focar nos 50% de cenários positivos? O que aprendi com este ano louco veio reforçar esta minha postura perante as coisas, perante a vida e vou partilhar convosco algumas destas minhas aprendizagens – não são todas mas selecionei as que mais me surpreenderam. Spoiler alert: preparem-se para alguns clichés

  1. Estar com a família

Em meados de Março quando, de repente, todos tivemos que nos enfiar em casa, fiquei muito preocupada com os meus filhos. Como iriam eles sentir-se, assim, presos em casa? Como iriamos sobreviver todos, fechados em casa, se até aos fins de semana quando tínhamos um mundo de oportunidades à nossa porta nada parecia ser suficiente?

Pois é… o que aconteceu foi o que eu menos esperei: passados os primeiros dias, quando perguntei ao meu filho – que é o mais ativo e irrequieto – se estava bem, a resposta que me deu surpreendeu-me verdadeiramente: “Estou bem, estamos em casa mas estamos todos juntos!”

Que levamos uma vida demasiado corrida já eu tinha noção… Mas nunca vi outra opção – sentia-me sempre como o hamster na sua roda. E o que fomos forçados a fazer, fez-me ter uma perceção muito real do quanto esta correria nos faz mal e aos nossos filhos e de que há opções.

Não foi pelas melhores razões que esta clausura se deu, é certo. No meio de aulas por zoom, trabalhos que tivemos de supervisionar e distrações que ajudámos a evitar, todos tivemos alturas em que nos apeteceu fugir, mas percebi que todos precisávamos de um ‘time out’ do corre-corre diário, em que praticamente não nos víamos nem nos ouvíamos uns aos outros.

Este tempo em que fomos obrigados a parar, a estar fechados em casa, fez-me perceber isso e o quão simples os desejos dos nossos filhos são: apenas querem estar connosco. Não interessa se no jardim, no cinema, em atividades ‘enriquecedoras’ ou apenas ali, em casa, todos no sofá ou um na cozinha, outro no quarto e outro na sala.

Isto pode ser óbvio para muitos que me estão a ler… mas para mim não era. Reaprendi a estar presente e a aproveitar pequenos momentos do dia a dia.

  1. Nada é garantido 

Quem nunca sentiu que os dias iam apenas correndo… iguais àquilo que sempre conhecemos? Aquela sensação de que o que quer que fosse que acontecesse, um conjunto de coisas ia sempre permanecer igual, inalterado, quer acordássemos hoje em 2021 quer acordássemos num qualquer dia de 2023 ou 2030?

Pois é… este ano veio mostrar-me que não é assim. Não há certezas. Há dias parecidos, mas nunca são iguais. E se forem? Cabe-nos a nós colori-los!

Sair de casa, despreocupadamente (mas sempre a correr!), todas as manhãs, no meio da azáfama de ter os miúdos na escola e chegar ao trabalho para mais um dia… com muitos abraços e beijos a outras mães, amigas ou até a outras crianças que não as minhas, sem máscara, sem desinfetante e desejosa de chegar ao escritório para um café e dois dedos de conversa na copa antes de começar o meu dia, rodeada de pessoas. Isto era a minha certeza.

O dia poderia correr mais ou menos bem, teria de ver pessoas com quem não me apetecia conviver e estar com outras tantas cuja companhia me agradava, mas iria, livremente, para o trabalho e livremente regressava a casa, passava pelo supermercado (sem filas à porta e sem corridas ao papel higiénico!) para comprar alguma coisa que faltasse em casa.

Esta rotina, toda esta ‘liberdade’ de que falo é muito mais frágil do que alguma vez a imaginei. Aprendi que os inimigos nem sempre têm forma ou são visíveis. E isto não acontece só nos filmes ou a alguém numa China muito distante…. Acontece-nos a todos, num dia qualquer, num sítio qualquer, em que acordamos num dia em que já nada é igual.

  1. Trabalho Remoto

Nenhuma surpresa para quem já estava a trabalhar em modo 100% remoto. Mas para quem não o fazia ainda, que era o meu caso, uma das grandes surpresas de 2020 foi que é possível ter saudades do escritório. Até daquele colega que passa o dia com conversas chatas e que nunca nos apetece ouvir.

Não me interpretem mal, adoro trabalhar de casa pelo conforto e liberdade que me proporciona, mas pode ser muito solitário e eu sinto falta de ter pessoas à minha volta, de conversar, de me rir e de fazer rir.

A pandemia e esta nova realidade de trabalho, fez-me perceber que sou mais sociável do que pensava. Vou frisar que ADORO trabalhar de casa… Mas, sem dúvida, sinto falta de alguns aspetos de trabalhar fora – a socialização é o que mais falta me faz.

Durmo mais, canso-me menos, sofro menos de stress e ansiedade, mas leio menos, pouco ou nada convivo e sinto falta da presença dos meus colegas no meu dia a dia.

Quando vejo aquelas sondagens sobre qual a realidade de trabalho que prefiro nunca me consigo decidir em absoluto por uma ou outra solução de trabalho.

  1. Tecnologia e informação

Com os avanços tecnológicos é unânime que todos passamos demasiado tempo ‘ligados’. Adoro tecnologia e passo demasiadas horas agarrada aos ecrãs (computador ou telemóvel, seja em trabalho ou lazer) mas ao longo do ano que terminou, creio que chegámos a um outro nível….

Tive alturas em que evitei ir a redes sociais e até de ler notícias pois senti que era tudo demais. A preocupação e desconhecimento que tínhamos sobre o coronavírus foram sendo compensados com ondas de informação pouco clara e nada fidedigna que apenas exacerbaram medos.

Não estive tão afastada da tecnologia como gostaria – essa promessa fica para este novo ano – mas, sem dúvida, que aprendi a dosear informação e a descartar logo (não só depois de ler) informação duvidosa.

Em Abril, verificava diariamente vários sites de notícias, lia inúmeros artigos, consultava diariamente as estatísticas da pandemia. Tive de dizer chega…. Instalei um contador do tempo que passava agarrada ao meu telemóvel e parei com esta busca frenética por mais e mais informação.

Selecionei criteriosamente as fontes de informação que sigo, voltei a ver o telejornal (não quero exagerar, mas já não tinha este hábito há muitos anos) pois isto significa mais um momento em família.

Embora duro, o ano que passou tratou-me bem. A vida continuou, tive desgostos, alegrias, chorei, preocupei-me, senti saudades e até viajei… mas o que mais aprendi foi que a nossa (ser humano) capacidade de adaptação é infinita.

Conseguimos mover-nos para alcançar o que queremos – desde que o que queremos seja verdadeiramente importante para nós! – e, mesmo no meio do caos, quando tudo parece correr mal e não conseguimos ver a luz, há ainda coisas que correm bem, portanto não nos esqueçamos de as agradecer e de nos focar no que é bom!

Um excelente 2021!