Acordar às 5 da manhã

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As horas bruxas

Sempre fui uma coruja. Preferi mil vezes deitar-me às tantas do que acordar às 5 da manhã para estudar ou trabalhar.

Durante décadas senti-me bem na noite, na paz e no silêncio que se adentra na escuridão e acalma a mente, deixando-a capaz de se concentrar. Durante muitos anos, esse foi o meu “piloto automático”. 

Quando tinha de fazer um extra, fosse na época de exames ou um trabalho que exigia mais de mim, bebia um café à tarde e aproveitava a luz das estrelas da minha mente, que, como se fossem pirilampos numa floresta encantada, iam abrindo passo à aprendizagem, deixando surgir a criatividade e a máxima expressão da minha própria magia. 

Assim obtive as minhas melhores qualificações e as ideias que me levaram mais longe até hoje. A sensação de deitar-se com todo o trabalho em dia, com uma enorme quantidade de projetos e ideias novas e incríveis para o futuro, foi durante anos um momento quase espiritual, de ligação com alguma fonte superior de criatividade e abundância.

Horários para diferentes fases da vida

Mas… essa rotina já não é sustentável para mim. Tendo uma família constituída, crianças que inevitavelmente acordam cedo ou durante a noite, ou trabalho que também deve executar-se durante o dia a horas estabelecidas e ditas “normais”, esse horário não é de todo prático. Foi um método muito produtivo para mim durante anos, mas já enquanto mãe trabalhadora deixou-me demasiadas vezes profundamente esgotada. E assim já não vale a pena.

Em Abril deste ano, depois do início da crise do COVID, senti, como muita gente, grande ansiedade em termos laborais. Prometi-me que não me deixaria ir no pessimismo, não cairia no desespero por ter perdido algum cliente e faria todos os possíveis por continuar a investir nos meus projetos e por manter a minha produtividade elevada, contando com o novo desafio de ter duas crianças em casa a precisar de atenção a tempo inteiro. 

E que é o que eu fiz? Comecei a acordar cedo, muito cedo. 

Uma nova hora mágica

Curiosamente, por esses dias alguém me falou do livro “O Clube das 5 da manhã” do Robin Sharma, e comecei a lê-lo, achando fabulosa a coincidência. Confesso que a história parece-me inverosímil, as personagens bastante improváveis, e, no geral, um relato algo forçado, talvez para tentar ser vendido aos gestores de topo, e ao mesmo tempo, a um público menos educado, exibindo-o nas bancas das bombas de gasolina. Isso para mim é estranho…

A obra deixa de fora questões como a forma de incluir esta nova rotina com a gestão de uma família, a necessidade de tempo a dois no dia a dia, e por vezes parte do princípio que os leitores estão num nível de conforto material elevado, o que poderá não ser verdade. 

Contudo, o livro contém grandes verdades de autoconhecimento e autogestão, de motivação e de reflexão, um convite para irmos mais além na nossa vida. É ao mesmo tempo uma obra de sabedoria e de construção de uma realidade alinhada com quem somos e por cima de tudo, com quem seremos ser. Durante a leitura, apanhei-me a meditar, a respirar fundo, a refletir, a tomar apontamentos. História e personagens à parte, o conteúdo é absolutamente precioso. 

Produtividade… e não só

Desde o dia 13 de Abril até o 17 de Maio acordei às 5 da manhã. Falhei umas três ou quatro vezes — mas nunca acordei além das 7h30, uns dias porque tinha algum desconforto físico, outras porque as minha filha não me deixou… mas posso dizer que consegui o que pretendia: dar conta do trabalho em atraso, para ter o resto do dia disponível para ser mãe e dona de casa. E ainda obtive outros benefícios:

  • Instalar um novo hábito. Dizem que são precisos 21 dias para criar um novo hábito, o livro do Robin Sharma diz que são 66 dias. O certo é que passado uma semana mais ou menos, o acordar começou a ser um motivo de alegria, um momento de balanço e extrema responsabilidade, uma vez que dele dependia o sentimento de sucesso do dia que tinha pela frente. Chegou um dia em que já nem precisava do despertador, o meu corpo entranhou a hora e começou naturalmente a acordar às 5h da manhã.
  • Sentir inspiração diária. Do mesmo modo que quando era coruja sentia a paz da noite, sendo andorinha comecei a ganhar o gosto pelos primeiros raios de sol, desta vez mais numa ótima de renascença do que descanso, de saber que tudo é possível já hoje, que o mundo continua a girar e, ao ser testemunho da claridade a despontar por minutos, sentir que cada momento é precioso, que a vida é um sopro, que merece ser vivida ao máximo, não apenas para trabalhar naquilo em que acreditamos e gostamos, mas também para nutrir-nos a vários níveis, e sobretudo, para partilhá-la da melhor forma com quem amamos.
  • Ser verdadeiramente produtiva. Antes que a família acordasse, tinha 3 ou 4h para fazer tudo: beber café, respirar, sentir o frescor da manhã a despertar, ouvir os pássaros na varanda, observar as estrelas a esvaecer-se, alongar o corpo, escrever os meus sentimentos e os meus objetivos num caderno, e finalmente, trabalhar, trabalhar, trabalhar, como se fosse o último dia em que tivesse trabalho. É incrível a quantidade de tarefas que podemos executar quando não há distrações e estamos focados!
  • Ganhar autoconfiança. Às 10h da manhã já tinha feito tudo o que tinha planeado, sentia-me uma supermulher, pronta para novos desafios. Ainda melhorei algumas outras questões familiares pendentes e até passei uma semana sem comer açúcar. A sensação de poder é muito forte.
  • Apreciar a beleza. A introspeção matinal, talvez provocada pelo novo hábito da escrita num diário, talvez por ter uns minutos de sossego comigo própria (sem barulhos, solicitações, crianças, telemóvel, etc.), fez que a minha sensibilidade para a beleza disparasse. É verdade que essa fase coincidiu com o pico da primavera, e, num ano em que os humanos estiveram recluídos durante semanas, a Natureza está a exibir as suas melhores cores e encantos. Apaixonei-me pelas formas das árvores e das folhas, apreciei os sons dos animais, as texturas das paisagens, as cores das flores. Também vi com olhos novos os gestos humanos, e com um olhar mais amigável o meu próprio corpo.

Respeitar os ritmos

Tive que parar. Apesar daquele estado de bênção, aquela inspiração toda, o certo é que o trabalho doméstico acrescido e a responsabilidade das crianças em casa durante semanas, não me permitiam descansar o suficiente. Não conseguia deitar-me às 9h para garantir 8h de sono.

Muitas vezes o que achamos que é falta de coragem é simplesmente esgotamento.

Eu esgotei-me, e cada dia começou a ser mais difícil. Fui ficando insensível a mim própria, aos ganhos e ao porquê desta aventura, fui perdendo a paciência com os meus filhos e marido. Fui trabalhando sem paixão, apenas para despachar. O cansaço fez que desejasse apenas dormir durante o dia, desenrascar refeições para serem mais o mais rápidas possíveis, colocar os meninos na TV para descansar, fiquei sem vontade de sair de casa —mesmo após a quarentena toda fechada nela… e assim foi-se perdendo a sentido. Comecei a sentir enxaquecas de sono, dores no corpo, tiques nervosos e insónias. Acabou a magia e começou o stress.

As fontes de motivação, produtividade e a coragem para seguir enfrente esgotam se não as renovarmos. É sempre assim. É o ciclo da vida. Para quem tiver interesse neste tema recomendo vivamente o livro The Power of Full Engagement. E eu já percebi que, se não tiver cuidado, funciono por ciclos de esforço exagerado e de descanso obrigatório em vez de circular numa velocidade de cruzeiro. É claro que nos períodos de esforço faço grandes avanços a vários níveis, mas a travagem é brusca… Questiono-me se compensa.

Parei e passei duas semanas a dormir melhor, conviver mais e a retemperar forças. Aproveitei o facto de ter concluído duas encomendas de trabalho grandes para recuperar o equilíbrio e focar-me por completo no curso AVança da Academia de Assistentes Virtuais. E está a saber-me tão bem este novo ritmo.

Aprendizagens

Não me arrependo nada de ter embarcado nesta aventura nem de a ter travado para já. Foi uma excelente aprendizagem de que sou capaz de mudar os meus ritmos e as minhas crenças acerca deles. Foi uma experiência incrível de sentir-me diferente e poderosa.

Já percebi que não vai funcionar comigo nesta fase estranha das nossas vidas, mas acredito que venha a ser uma excelente arma de produtividade e bem-estar numa fase posterior: essa nova normalidade que todos estamos a lutar por entender e construir.